Dom Casmurro é, sem dúvida alguma, um dos mais belos romances da literatura de língua portuguesa. Construído sob o signo da desconfiança e do ciúme, é a Othelo, de Shakespeare, que podemos compará-lo.
Hoje centenária, a personagem Capitu, aquela que ostentava os famosos “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”, é a mais intrigante de todas as criaturas construídas pelo Bruxo do Cosme Velho e, por isso mesmo, encanta, seduz, inquieta e faz com que o leitor queira chegar ao fim da história. Ao narrar sua vida, Bento Santiago conta-nos sobre outras vidas, ações, ambições e esperanças e faz desfilar diante dos nossos olhos uma fauna humana urbana e inquieta, interdependente: retratos da família, retraços, grandes solidões, o eterno jogo do ser e do parecer.
Três romances, um novo tempo A obra realista machadiana inicia-se apenas em 1881, com a publicação de Memórias póstumas de Brás Cubas; antes disso, o escritor já era conhecido do público por crônicas e contos publicados em jornais e revistas, e escrevera romances românticos (Helena, Iaiá Garcia, A mão e a luva). Memórias póstumas de Brás Cubas inicia uma trilogia a que damos o nome de “obra madura” do escritor; Quincas Borba (1891) e Dom Casmurro (1899), foram escritas na sequência. Dom Casmurro é o ponto mais alto dessa trilogia; os teóricos da literatura costumam observar que, no romance, o escritor havia depurado seu estilo e era finalmente capaz de concretizar criaturas (quase) verdadeiras como as que habitam a vida e de dar-lhes contornos e nitidez capazes de fazê-las falantes, donas de olhos e mãos, pernas e braços, ternura e revolta, desconfiança, amor e desamor.
Para lembrar Antes de se tornar o escritor realista, Machado de Assis trabalhou longamente no Jornal das Famílias (1863 a 1878), cuja publicação era mensal e possuía seções de costura, artesanato, contos, crônicas e romances em folhetins.
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