Cobra Norato é a obra mais importante de Raul Bopp. Significando "boa língua" em tupi, o livro resume toda a corrente modernista situada entre o verde-amarelismo e antropofagismo, movimentos aos quais o escritor esteve ligado. Raul Bopp utiliza o folclore amazônico, valendo-se do mito conhecido como Cobra Honorato: no poema, o herói mata a cobra e assume a pele do animal. A seguir, parte em busca da amada, a filha da rainha Luísa. No fabuloso cenário da floresta, entre perigos e aventuras, o herói enfrenta seu principal antagonista, a cobra-grande (outro mito representativo do norte brasileiro). Cobra Norato vence a cobra-grande graças à sua esperteza e se casa com sua amada.
Mito ribeirinho
A cobra-grande – também conhecida como cobra-preta – é um mito pertencente às populações ribeirinhas do Amazonas e afluentes. Os indígenas falavam de uma força assombrosa, voraz, que comia crianças e adultos que se banhavam naquelas águas. Um registro, datado de 1819, conta que os índios se recusavam a matar cobras, para evitar a ruína não só de quem tivesse dado fim ao réptil, mas de toda a tribo.
Cuidado com o moço alto e bonito na beira do rio...
A lenda de Cobra Honorato conta que uma mulher indígena tomava banho entre os rios Amazonas e Trombetas quando foi engravidada pela cobra-grande. Nasceram um menino, chamado Cobra Honorato, ou Norato, e uma menina, Maria Caninana, que se torna má e traz muitos problemas para o irmão. Para conseguir viver com tranquilidade, Honorato acaba matando a irmã. Cobra e homem ao mesmo tempo, à noite Honorato se desencanta e se torna um rapaz alto e bonito que dança nas festas próximas ao rio. Na margem, fica o couro da cobra. Quem conseguisse derramar leite na boca do réptil imóvel e dar uma cutilada (golpe com instrumento de ponta) em sua cabeça a ponto de verter sangue, acabaria com a penitência de Honorato: ele voltaria a ser apenas um rapaz. Um soldado cumpre as exigências e Honorato é desencantado.