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Aluísio Azevedo – O cortiço No romance O cortiço, de Aluísio Azevedo, os capítulos dedicados ao domingo compõem um retrato dos costumes, cujas origens estão registradas em nosso folclore de tradição africana: não só a comida, como a música e a dança que acontecem depois do almoço. O narrador chama o festejo de pagode, palavra que hoje define um estilo musical, mas que antes indicava somente uma reunião festiva e ruidosa.
Esse encontro podia ter comida, bebida, danças, cantares e até prazeres considerados licenciosos. O pagode, enquanto festa, era e ainda é de caráter íntimo, com a presença de amigos. Assim, a narrativa de O cortiço nos deixa saber que, às três da tarde, Firmo, com seu violão, e Porfírio, com seu cavaquinho, chegam à casa de Rita Baiana, no cortiço de João Romão, prontos para o 'rega-bofe'. |
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Parati como abrideira
Depois que todos se acomodam, começam a tomar como 'abrideira' a parati, aguardente típica da cidade de mesmo nome, no litoral sul do Rio de Janeiro. Além do vatapá, o almoço era composto por leitão ao forno, sopa, café e pratos feitos pela vizinha das Dores, como o zorô. Ao cair da noite, Firmo e Porfírio saem da casa para iniciar um chorado baiano.
Enquanto Firmo canta, forma-se uma roda em torno dos mulatos, e os participantes batem palmas. Mais tarde, Rita sai de seu barraco e entra no meio da roda, sapateando e gingando ao som de palmas cadentes. Com a chegada de outros moradores do cortiço, o círculo vai aumentando e o pagode segue até de madrugada.
O domingo da baiana tem... Inserido em nosso folclore alimentar, o vatapá é um tradicional prato afro-baiano, originário dos negros nupês e adotado pelos iorubanos, que o introduziram no Brasil. Consiste em peixe ou crustáceos numa papa de farinha de mandioca, com molho de dendê e pimenta. Sobre essa base, há uma infinidade de variantes, algumas com carne de boi.
Já o zorô é um prato tradicional em que se fervem camarões, que depois são cortados em pedaços, refogados com salsa, pimenta-do-reino, cebola, cebolinha e tomates. A esse refogado, juntam-se maxixes, jilós ou quiabos, cortados em rodelas, e um pouco de água. Deixa-se cozinhar bem. Serve-se com angu de milho.
Chorado e batuque
Com relação à música e à dança, o chorado citado pelo narrador pertence ao folclore amazônico da Zona Bragantina, no Pará. Trata-se de uma coreografia da 'marujada', dança apresentada durante os festejos de São Benedito, em dezembro. Suas raízes estão no lundum, que é um gênero musical da contemporaneidade e uma dança brasileira criada a partir dos batuques dos escravizados bantos.
Os participantes fazem uma roda e a mulher sai sozinha para dançar por algum tempo até escolher o par. Ela demonstra qual é o escolhido, batendo o pé com mais força na direção do eleito e acenando com os dedos. Só um par dança por vez. Tomado em seus aspectos gerais, o chorado espalhou-se pelo Brasil, adquirindo acentos próprios em cada região.
Na coreografia, o par evolui solto. O lundum dividiu-se em várias alterações, entre elas o chorado, citado na narrativa, e o samba solto, individual, sacudido, a batucada em que cada bailarino procura superar o anterior.
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