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Proposta de redação

Com base nos textos da coletânea abaixo, escreva um texto dissertativo, em prosa, com a seguinte delimitação de tema: É possível curar a cegueira da nossa sociedade?
 
Texto 1:
“Vamos admitir que o procurador tcheco que pedia, no começo dos anos 50, a pena de morte para um inocente tivesse sido enganado pela polícia secreta russa e pelo governo do seu país. Mas agora sabemos que as acusações eram absurdas e que os condenados eram inocentes, como podemos admitir que o mesmo procurador defenda sua pureza de alma batendo no peito e dizendo: “Minha consciência está limpa, eu não sabia, eu acreditei!” Não é precisamente no seu “Eu não sabia! Eu acreditei!”que reside sua falta irreparável?
Nesse ponto Tomas se lembrou da história de Édipo. Édipo não sabia que dormia com sua própria mãe, e, no entanto, quando compreendeu o que tinha acontecido, nem por isso se sentiu inocente. Não pôde suportar a visão da infelicidade provocada por sua ignorância, furou os olhos e, cego para sempre, partiu de Tebas.
Tomas ouvia o grito dos comunistas que defendiam sua pureza de alma, e dizia a si próprio: “Por causa de sua inconsciência o país talvez tenha perdido séculos de liberdade. Mesmo assim vocês gritam que se sentem inocentes? Como podem ainda olhar em torno de si mesmos?”
(Milan Kundera, A insustentável leveza do ser)
 
Texto 2:  
“Uma cega te ama. Os olhos abrem-se.
Não, não te ama. Um rico, em álcool,
é teu amigo e lúcido repele
tua riqueza. A confusão é nossa, que esquecemos
o que há de água, de sopro e de inocência
no fundo de cada um de nós, terrestres. (...)”
(Carlos Drummond de Andrade, Canto ao homem do povo Charles Chaplin)  
 
Texto 3:  
“Diz-se a um cego, Estás livre, abre-se-lhe a porta que o separava do mundo, Vai, estás livre, tornamos a dizer-lhe, e ele não vai, ficou ali parado no meio da rua, ele e os outros, estão assustados, não sabem para onde ir (...).
(José Saramago, Ensaio sobre a cegueira)
 
Texto 4:  
“Como a Justiça no Brasil não é exatamente ágil e as leis processuais permitem protelações infinitas de decisão, o mandato parlamentar é, para muitos, garantia de perpétua impunidade. Basta dispor de um bom advogado para administrar o labirinto processual.
Há ainda os que financiam candidatos para se apossar, na seqüência, do mandato. O eleito se licencia e o financiador, na condição de suplente, assume a vaga para a qual não recebeu um único e escasso voto. A legislação da suplência permite isso. É um convite à negociata eleitoral.”
(Ruy Fabiano, Suplência, política e impunidade. Globo Online. 7/10/2008)
 
Texto 5: 
“Cego às avessas, como nos sonhos, vejo o que desejo
Mas eu não desejo ver o terno negro do velho
Nem os dentes quase-não-púrpura da menina
(Pense Seurat e pense impressionista
Essa coisa da luz nos brancos dente e onda
Mas não pense surrealista que é outra onda)
E ouço as vozes
Os dois me dizem
Num duplo som
Como que sampleados num Sinclavier:
"É chegada a hora da reeducação de alguém”
(Caetano Veloso, O Estrangeiro) 
 
 

Elaboradora da proposta

A professora Taís Gasparetti é formada em Letras pela Unicamp, atua como corretora de exames seletivos de universidades nas áreas de redação e literatura. É professora na rede particular e pública e revisora de teses, dissertações e obras acadêmicas.


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