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Entrevista com Lidia Aratangy

Klickeducação – Quais são os principais temores dos pais em relação a seus filhos adolescentes?
Lidia Aratangy – As principais preocupações dos pais de adolescentes giram em torno da tríade sexo, drogas e violência. Sexo e drogas apresentam perigos óbvios para todos – engravidar alguém ou engravidar, pegar doenças –, mas o temor da violência se refere não só a agressões que os filhos possam sofrer, mas também à agressividade dos próprios jovens.



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– Essas preocupações seriam também motivadas pela imagem que os pais têm dessa geração?
Lidia Aratangy – Há algum tempo, o principal dilema dos pais era que mundo deixariam para os filhos. Hoje é em que mãos deixarão o mundo. Isso mostra que, de um modo geral, os pais não confiam nos filhos, têm uma imagem aviltada deles – 'São todos uns consumistas', 'Não têm nada na cabeça', 'Não sei a quem puxou…'. O que está por trás de todas essas ansiedades é a questão do limite, o que significa o respeito pelo outro, a liberdade.

Klickeducação – Por que a dificuldade em impor limites?
Lidia Aratangy – É difícil impor limites se os pais têm total intolerância com a frustração dos filhos. Eles não agüentam ver os filhos magoados, frustrados, de forma alguma, como se a frustração fosse um desvio de rota, não fizesse parte do caminho da vida. Porém, é impossível ser uma pessoa completa sem passar pela frustração. A dificuldade paterna com a possibilidade de frustração gera uma bagunça na imposição de limites aos filhos.

Klickeducação – Qual é o motivo do imediatismo dos jovens na satisfação dos desejos?
Lidia Aratangy – O imediatismo na adolescência é reforçado pela atitude dos pais, que usam com os filhos frases do tipo 'Esses são os melhores anos da sua vida', 'Aproveite enquanto é tempo' ou, então, 'Essa festa vai acabar'. Isso é dito em contraponto com as insatisfações que os próprios pais demonstram com a vida que levam: a correria do dia a dia, o excesso de trabalho, a insatisfação com os filhos e com o casamento. Isto é, os pais pintam uma imagem assustadora da vida adulta. A necessidade de satisfação imediata dos desejos é um dos caminhos que levam a experimentar drogas, pois estas produzem uma sensação imediata de prazer.



Klickeducação – Essa comparação de situações não serve para mostrar aos filhos que eles são privilegiados?
Lidia Aratangy – É uma tentativa de provar como os filhos são felizes, ou seja, de os pais mostrarem como são melhores do que os pais que eles próprios tiveram. 'No meu tempo, não era assim', 'Eu não tinha tudo isso', 'Eu não podia nem pensar em pedir para o meu pai uma coisa dessas'. Mas isso não é verdadeiro, pois a alegria dos filhos pouco depende dos pais na adolescência. Depende muito mais de um telefone que não toca – daquela menina ou menino que não chama, do amigo ou da amiga que mancaram. Então, desmonta-se a fantasia da onipotência dos pais.

Klickeducação – Como lidar com esse desencontro?
Lidia Aratangy – Pelo diálogo. Os pais não chegam perto do universo do filho. Nunca conversaram com eles quando eram crianças e queriam atenção; agora, na adolescência, quando o jovem quer soltar as amarras e ser independente, fica ainda mais difícil a conversa. A saída para os pais é a prevenção, que começa na infância. É dar tempo aos filhos, antes, para ouvi-los. Sem isso, os pais transmitem aos filhos a informação de que não dão importância para o universo deles. Quando a criança vem contar para a mãe ou para o pai o que aconteceu na escola, é comum eles não quererem escutar: 'Agora estou ocupada' (lendo o jornal, vendo a novela, preparando o almoço, seja o que for). 'Depois a gente conversa.'

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– E nunca se cumpre esse depois …
Lidia Aratangy – O depois nunca chega. Cria-se um distanciamento entre o mundo do filho e o dos pais. Mesmo que aquela tarefa ou passatempo dos pais fosse inadiável, eles deveriam procurar depois o filho para ouvir o que ele tinha para dizer. 'Pronto. Acabei o que estava fazendo. Agora me conta o que aconteceu na escola.' É assim que se cria desde cedo a abertura para o diálogo. Até para poder mais tarde conversar com eles, e ser ouvido, a respeito da violência e do sexo, que passam a ser os principais temores dos pais. Quanto mais demorar o diálogo, maiores são as barreiras entre pais e filhos. Por isso é complicado. O pai e a mãe precisam entender que o filho que está fugindo deles já os tinha procurado antes; o jovem que está evitando a conversa uma vez tentou falar sobre assuntos pessoais. Hoje, é ele quem está lacônico. Para entender isso é preciso entrar no universo do filho.


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