Para lembrar O dramaturgo soube aliar em suas obras o divertimento e o espírito reformador apoiado no respeito às instituições, além de um alto padrão estético.
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A passagem anterior mostra, resumidamente, a barulhenta estreia do dramaturgo Gil Vicente. Essa entrada em cena para representar o
Monólogo do Vaqueiro ou
Auto da Visitação, sua primeira peça, é exemplo de sua personalidade artística bombástica e corrosiva, que prefere o protesto à cordialidade. Mesmo assim, Gil Vicente foi um sucesso em sua época.
O preferido dos reis
Não se sabe exatamente quando ou onde Gil Vicente nasceu. Os poucos indícios históricos registram seu nascimento entre 1465 e 1470, possivelmente em Guimarães. Uma cidade rica em artistas e artesãos, onde provavelmente aprendeu o ofício de ourives , que praticou nas cortes de D. Manuel I (1469 a 1521) e de D. João III (1502 a 1557).
Gil Vicente viveu a maior parte de sua vida em Lisboa, centro comercial e cultural de Portugal. De origem popular, não se sabe onde adquiriu a vasta e diferenciada cultura com que marcou sua obra. Todas ou quase todas as afirmações biográficas a respeito do dramaturgo são suposições. Graças a isso, costuma-se dividir essa figura histórica em dois:
• O Gil Vicente ourives ou de atividades semelhantes.
• E o Gil Vicente poeta, dramaturgo e encarregado da preparação das festas palacianas.
Há dúvidas inclusive se ambos seriam os mesmos, pois se torna difícil juntar as duas personalidades. No entanto, é o Gil Vicente poeta e dramaturgo que aqui interessa. Aquele que desenvolveu em Portugal um teatro até hoje incomparável em sua grandeza.
Para lembrar Sua produção inicia-se em 1502, com o Monólogo do Vaqueiro, ou Auto da Visitação, e termina em 1536 com Floresta de Enganos,, num total de 34 anos de intensa produtividade e 46 peças, sendo uma em castelhano, 16 bilíngues e as restante em Língua Portuguesa.
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Uma produção intensa e original A obra de Gil Vicente não seguiu nenhum padrão determinado. Não há sinal de que conhecesse o drama grego e não há registro histórico de teatro pré-vicentino em Portugal. Além de uma rudimentar ação dramática que floresce na Europa, durante a Idade Média, o espanhol Juan del Encina (1468 a 1529) foi quem primeiro compôs peças de caráter pastoril e religioso na Península Ibérica. Gil Vicente é, portanto, o criador do teatro em Portugal.
Esse conjunto foi reunido e editado por seu filho, Luís Vicente, em 1562, no volume entitulado
Compilaçam de Todalas Obras de Gil Vicente. Um trabalho que infelizmente não teve o rigor necessário, pois apresentou alterações nos textos e omissão de peças. Ignora-se também a data da morte de Gil Vicente, sabendo-se apenas que aconteceu entre 1536, ano em que foi representada sua última peça, e abril de 1540, data de um documento em que aparece a seguinte frase: “Gil Vicente, que Deus perdoe”.
Uma época de transformações
O período histórico em que se situa Gil Vicente é chamado de Humanismo, ou Segunda Época Medieval, ou Primeiro Renascimento. Um período que, em Portugal, se inicia em 1418, quando Fernão Lopes (cronista, considerado o pai da História Portuguesa) é nomeado, pelo rei D. Duarte, Guarda-Mor da Torre do Tombo (o mais importante arquivo histórico de Portugal). O Humanismo termina em 1527, quando o poeta e dramaturgo Sá de Miranda (1481 a 1558) retorna da Itália, trazendo consigo novidades estéticas que mudariam em parte os rumos da Literatura portuguesa.
Esses acontecimentos históricos ganham importância dentro de um contexto mais amplo. O surgimento de um artista como Fernão Lopes, independente e dono de uma nova mentalidade, é ilustrativo de um tempo em que Portugal vivia transformações profundas.
No século XV, o país estava ingressando na modernidade mercantil e expansionista e, consequentemente, abandonando o mundo medieval. Era a época das grandes navegações, descobertas, invenções. No interior dos palácios ainda persistia uma nobreza tradicional, de estrutura feudal, mas que já estava decadente.
Nas ruas, porém, fervia a agitação do comércio, de que se originou uma nova classe social, a burguesia, e uma nova ideologia das relações humanas centrada no lucro e no saber.
Em
História Social da Literatura Portuguesa, Benjamim Abdala Júnior e Maria Aparecida Paschoalin descrevem assim essa ideologia emergente: “Há a consciência de que é necessário o saber. É através do conhecimento que o homem e a vida se transformam. O mercador de tecidos estabelecido no Porto ou em Lisboa, além de ler e escrever, aprende a contar. A extensão de seus negócios acarreta maiores conhecimentos geográficos. Conhecedor do seu ramo, entende de tecelagem, tinturaria, decoração de panos. Conhece o mercado: entende de oferta e procura; sabe do transporte, do que o país pode fabricar, dos recursos e do poder de compra das províncias. Seu saber não é local (como era para o servo), é nacional. A noção de destino fadado por forças ocultas começa a ser substituída pela noção prática do lucro: com mais lucro ou menos, a vida é melhor ou pior. A cultura amplia-se.” Há uma imensa crença no homem. Tal conceito projeta-se na retomada dos estudos clássicos (grego, latim) e da arte clássica, nas quais as noções de homem e Deus se confundem.
Para lembrar Tudo isso acontece em Lisboa, que à época da primeira encenação do Auto da Barca do Inferno, em 1517, é a maior cidade da Península Ibérica e uma das maiores da Europa (cerca de 60 mil habitantes). Tudo isso em Portugal, que então controlava colônias na África, América, Ásia e em ilhas espalhadas pelo Atlântico, Índico e Pacífico.
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O Humanismo é o reflexo desse mundo em transição. Comercial e feudal. Burguês e nobre. Técnico e místico. Inclinado ao progresso, mas com raízes ainda medievais.
Características do teatro vincentino Rico e variado, o teatro de Gil Vicente compõe um painel da época e do mundo em que viveu o autor.
Um teatro popular
A primeira noção de popular se percebe nos temas e na linguagem. O teatrólogo não conhecia o teatro grego. Foram os gregos que inventaram o teatro clássico. Suas peças possuíam unidades estruturais. Unidade de tempo: o drama se passa num período de um dia na vida dos personagens.
Unidade de espaço: há apenas um espaço para o desenrolar da trama. Unidade de ação: a narrativa apresenta uma sequência lógica, com começo, meio e fim.
A segunda noção de popular no teatro vicentino se dá com a quebra dessas unidades. Gil Vicente faz isso ao longo de sua produção, sem ter a consciência de tal procedimento. No
Auto da Barca do Inferno, por exemplo, há um desvio no conceito de unidade de ação, pois trata-se de uma narrativa descontínua, na qual cada personagem traz sua própria história, que pode ser vista isoladamente.
Para lembrar A obra de Gil Vicente junta crítica e sátira. É pelo humor crítico que ele procurava corrigir a sociedade. Daí o sentido moralista de sua obra. Trata-se da incorporação ao seu trabalho artístico do lema latino “Ridendo Castigat Mores” (ou Rindo, Castigam-se os Costumes Viciosos). Assim Gil Vicente mostra-se crente no espírito purgador da dramaturgia.
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Um teatro crítico e ao mesmo tempo satírico e moralizanteEssa é uma das características mais complexas e vitais do teatro vicentino. Gil Vicente não se curvou ao seu tempo. Foi crítico mordaz. Bombardeou praticamente todos os setores da sociedade, apenas poupando as abstratas noções de instituição. Ou seja, criticou a hipocrisia do clero, em nome da fé cristã.Desbancou a tirania da nobreza, em nome da justiça social.
Condenou a corrupção dos burocratas, em defesa do bem público. Nunca deixou de ser contundente e realista.
O dramaturgo, porém, foi um privilegiado. Pôde desenvolver seu veio artístico com bastante liberdade, sem se preocupar com a sobrevivência diária. Viveu com certa tranquilidade, protegido e incentivado sob regime de
mecenato pelas cortes de dois reis de Portugal. E isso, graças principalmente às riquezas que o país e o teatrólogo viam chegar de terras estrangeiras, quase diariamente. Mesmo assim, ele não deixou de criticar a sociedade de seu tempo. Isto porque tinha a convicção de que uma das funções sociais da Literatura é a problematização da realidade.
Um teatro poético
A linguagem é especialmente importante na obra de Gil Vicente. Seus personagens expressam-se em versos, fusão do teatro com a poesia. O padrão é o redondilho, com predominância do maior, verso típico daquela época. O efeito final é grandioso. Gil Vicente faz o texto fluir na boca dos personagens de maneira clara, sem deixar perceber que, por trás e no fundo, se trata de uma complexa rede textual, com metáforas, trocadilhos, ironias, rimas internas, balanços rítmicos, além da metrificação e de um esquema rítmico (de rima) tradicional.
Gil Vicente é tão poeta quanto dramaturgo, e no caso do
Auto da Barca do Inferno, é mais poeta do que dramaturgo.
Para lembrar Mas, a ideia de teatro sacro (religioso) não deve ser confundida com teatro de louvor ou litúrgico. Ao longo de sua carreira, Gil Vicente identificou-se com uma postura radicalmente anticlerical, o que não significa absolutamente anticatolicismo.
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Um teatro com temas profanos e sacros
O teatro de Gil Vicente reflete os costumes, como na
Farsa de Inês Pereira, e trata do religioso alegórico, como no
Auto da Barca do Inferno. Essa divisão caracteriza a ideia de um mundo em transição, própria do período Humanista, pois tanto centra-se no homem quanto na religião. O conceito de teatro religioso alegórico, no
Auto da Barca do Inferno, é entendido a partir de sua estrutura, que se apóia num simbolismo baseado no maniqueísmo cristão que divide o mundo entre o Bem e o Mal, com os consequentes Céu e Inferno.
Gil Vicente dividiu-se entre um espírito de religiosidade ortodoxa e uma ação contestatória e reformista. Fez de sua arte instrumento de contestação e denúncia, graças a um poderoso senso de moral que permeia suas obras e ao prestígio que tinha junto aos reis portugueses, primeiro de D. Manuel I e depois de D. João III, de quem celebrou o nascimento. Apesar de toda essa proteção, sua sátira às vezes ultrapassava os limites do tolerável para a cúpula religiosa. Há indícios históricos de que ele foi perseguido e censurado. Talvez tenha até sido preso e temporariamente desterrado, no fim de sua vida, mais precisamente entre 1533 e 1536.
Um teatro rico em tipos sociais e personagens
Para construir seu teatro crítico, satírico e moralizante, Gil Vicente busca principalmente personagens típicos, também chamados tipos sociais.
Esses personagens desempenham um nítido papel de representação social, em todas as suas camadas (clero, nobreza, povo), com tendência à caricatura. Eles têm fortes tintas sociais, mas falta-lhes densidade psicológica. Dessa forma, o dramaturgo português mostra a tendência de sua obra, inclinada para o retrato social mais ou menos estereotipado, com juízo de valores.
No
Auto da Barca do Inferno, esses juízos de valores serão manipulados por dois personagens, o Anjo e o Diabo, que personificam as ideias abstratas e puras do Bem e do Mal. Essas duas figuras são personagens alegóricos, funcionam como símbolos de uma ideologia – que nesse caso é a ideologia cristã. Mas, apesar de toda essa simbologia, a atenção do dramaturgo português está sempre centrada no mundo a sua volta e a alegoria mostra-se a serviço da observação da sociedade.